Crônica
O campeonato mundial da certeza
08/07/2026
16:30
João Roberto Giacomini*
João Roberto Giacomini
Descobri que existe uma acusação da qual ninguém consegue se defender.
Teoria da conspiração.
Ela possui uma qualidade invejável: encerra qualquer discussão antes mesmo que ela comece.
Você não precisa rebater argumentos, examinar fatos ou responder perguntas. Basta levantar discretamente a sobrancelha, sorrir com certa superioridade intelectual e decretar:
— Lá vem mais um conspiracionista.
Pronto.
A dúvida morre sem direito à defesa.
Confesso certa inveja desse método. É uma das maiores economias de raciocínio já produzidas pela humanidade. Enquanto alguns ainda insistem em pensar, outros preferem etiquetar. Dá menos trabalho.
No futebol, essa técnica atingiu níveis profissionais.
Questione um impedimento.
Observe um critério diferente para lances idênticos.
Pergunte por que a mesma regra parece mudar conforme a camisa.
Você deixará de ser torcedor.
Passará a integrar uma obscura organização internacional especializada em teorias da conspiração.
O curioso é que quase ninguém acredita em conspiração quando ela beneficia a própria convicção. Nesses casos, recebe nomes muito mais elegantes: interpretação, contexto, critério técnico ou, a mais sofisticada de todas, coincidência.
A coincidência é uma senhora muito educada. Tem o estranho hábito de visitar sempre o mesmo endereço.
Foi então que percebi que esta crônica nunca foi sobre futebol.
Era sobre fé.
Não sobre Deus.
Sobre nós.
Porque religião e esporte vivem brigando para provar que são coisas diferentes, quando ambos sobrevivem da mesma matéria-prima: acreditar.
O torcedor acredita.
O fiel acredita.
Os dois possuem cânticos.
Os dois possuem intérpretes autorizados da verdade.
E ambos costumam olhar com certa desconfiança para quem faz perguntas demais.
Outro dia imaginei uma cena.
Entro num confessionário.
Do outro lado, um padre.
Começo minha confissão.
Mal termino o primeiro pecado.
— Não posso absolvê-lo.
Tenho um defeito antigo.
Minhas melhores respostas sempre chegam atrasadas.
Não no dia seguinte.
Isso seria eficiência.
As minhas costumam aparecer quando já estou indo embora, escovando os dentes ou lembrando da conversa durante o banho.
Naquele dia, por alguma misericórdia divina, chegaram a tempo.
— Posso saber por quê?
— Porque o senhor continua vivendo em pecado.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Não porque concordasse.
Porque perguntas também precisam respirar antes de nascer.
Então perguntei:
— Padre... permita-me uma curiosidade. Se nós dois morrêssemos exatamente agora, Deus condenaria com maior rigor aquele que veio pedir perdão ou aquele que decidiu não descobrir se havia, de fato, arrependimento?
O padre me olhou demoradamente.
Depois respondeu:
— Que Deus tenha misericórdia de você.
Levantei-me para sair.
Já na porta, meu conhecido atraso intelectual resolveu colaborar mais uma vez.
Voltei-me para ele e sorri.
— Padre... espero, sinceramente, que tenha piedade de nós dois.
Saí dali sem saber quem tinha razão.
E acho que essa foi a única certeza realmente útil daquela conversa.
Vivemos um tempo estranho.
Nunca houve tantas câmeras.
Tantos especialistas.
Tantas estatísticas.
Tantos recursos para enxergar melhor.
E, paradoxalmente, nunca dependemos tanto daquilo em que já decidimos acreditar.
O torcedor procura o replay que o absolva.
O eleitor procura a notícia que o confirme.
O consumidor procura a opinião que o tranquilize.
O fiel procura o sermão que não o contrarie.
Talvez todos nós façamos exatamente a mesma coisa.
No fundo, raramente defendemos ideias.
Defendemos pertencimentos.
Nossa camisa.
Nossa tribo.
Nossa confortável coleção de certezas.
Enquanto isso, a dúvida continua sentada no banco de reservas.
Pouca gente percebe que foi ela quem inventou a filosofia, a ciência, o Direito e quase tudo aquilo que fez a humanidade avançar.
As certezas, por sua vez, possuem um currículo diferente.
Elas costumam chegar primeiro.
Aplaudem a si mesmas.
E dificilmente admitem revisão.
Talvez por isso lotem estádios, templos e redes sociais.
Pensar exige coragem.
Concordar exige apenas plateia.
No fim das contas, o maior campeonato do mundo nunca aconteceu dentro das quatro linhas.
Ele acontece diariamente dentro de cada um de nós.
De um lado entra em campo a dúvida.
Do outro, a certeza.
Quase sempre a certeza vence.
Não porque joga melhor.
Mas porque a dúvida, antes de chutar para o gol, ainda insiste em perguntar se o goleiro está realmente na posição errada.
*Advogado
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