Política / Opinião
Lula escolhe MS para agenda que aproxima agronegócio e agricultura familiar
Visita presidencial a Três Lagoas e Ponta Porã mostra o peso estratégico do Estado na produção, na indústria e na reforma agrária
23/06/2026
15:45
Tiago Botelho*
©DIVULGAÇÃO
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva volta a Mato Grosso do Sul nesta quinta-feira (25) para uma agenda que reúne dois pilares centrais da economia e da política agrária brasileira: o agronegócio e a agricultura familiar. A visita, a segunda dele ao Estado em 2026, passa por Três Lagoas e Ponta Porã, com compromissos que dialogam diretamente com a força produtiva sul-mato-grossense.
Em Três Lagoas, Lula participa da agenda de retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN3), empreendimento considerado estratégico para o país. Em Ponta Porã, o presidente acompanha a entrega de títulos e lotes a famílias da reforma agrária no Assentamento Itamarati, um dos maiores e mais simbólicos projetos do gênero no Brasil.
À primeira vista, são compromissos distintos. Mas, vistos em conjunto, eles revelam uma estratégia clara: mostrar que o desenvolvimento do campo brasileiro não depende de um único modelo produtivo. Em Mato Grosso do Sul, grandes cadeias do agronegócio, pequenos produtores, assentamentos, indústria, logística e exportação convivem dentro de uma mesma realidade econômica.
A retomada da UFN3 tem peso nacional. O Brasil ainda depende fortemente da importação de fertilizantes, insumo essencial para a produção agropecuária. Ao recuperar uma obra paralisada por anos, o governo tenta reduzir essa dependência, fortalecer a indústria nacional e ampliar a competitividade do setor produtivo. Para Três Lagoas e região, a expectativa também passa pela geração de empregos, movimentação econômica e atração de novos investimentos.
Se em Três Lagoas a agenda olha para a cadeia industrial ligada ao agronegócio, em Ponta Porã o foco será a agricultura familiar. A entrega de títulos e lotes no Assentamento Itamarati busca garantir segurança jurídica às famílias assentadas, ampliar o acesso ao crédito, estimular a produção de alimentos e fortalecer comunidades que têm papel importante no abastecimento regional.
Esse contraste é justamente o ponto político mais relevante da visita. Lula busca sinalizar que o campo brasileiro não precisa ser tratado como espaço de oposição entre grandes e pequenos produtores. Ao contrário, a agenda em Mato Grosso do Sul indica que desenvolvimento econômico e inclusão social podem ser trabalhados de forma conjunta, desde que haja investimento, regularização, infraestrutura e diálogo.
Mesmo enfrentando resistência em parte do setor produtivo, o governo federal tem tentado ampliar sua presença no campo por meio do Plano Safra, do crédito rural e da retomada de obras estruturantes. Em um Estado que bate recordes de produção e exportação, a visita presidencial também funciona como gesto de aproximação com uma das bases mais importantes da economia nacional.
Mato Grosso do Sul ocupa posição estratégica nesse debate. O Estado combina produção agropecuária forte, avanço industrial, localização logística relevante e histórico de grandes projetos de reforma agrária. Essa combinação faz do território sul-mato-grossense uma vitrine para políticas públicas que buscam conciliar produtividade, desenvolvimento regional e inclusão.
A escolha do Estado, portanto, não é casual. Poucos lugares representam tão bem a diversidade do campo brasileiro. Aqui, o agronegócio empresarial movimenta exportações, empregos e tecnologia, enquanto a agricultura familiar ajuda a sustentar comunidades, produzir alimentos e manter viva uma parte essencial da economia rural.
Ao reunir UFN3 e Assentamento Itamarati na mesma agenda, Lula envia uma mensagem política: o futuro do campo brasileiro passa pela convivência entre diferentes formas de produção. Mato Grosso do Sul, nesse contexto, aparece como exemplo concreto de que crescimento econômico e justiça social não precisam caminhar em lados opostos.
A visita presidencial também reforça o protagonismo sul-mato-grossense no cenário nacional. Mais do que um compromisso administrativo, a agenda coloca o Estado no centro de uma discussão decisiva para o país: como produzir mais, depender menos do exterior, garantir renda no campo e incluir famílias que historicamente ficaram à margem das grandes decisões econômicas.
No fim, a resposta à pergunta inicial é direta: Lula escolheu Mato Grosso do Sul porque o Estado sintetiza os desafios e as possibilidades do campo brasileiro. Aqui, agronegócio, agricultura familiar, indústria e reforma agrária não são temas abstratos. São parte da vida real, da economia e do futuro de milhares de famílias.
*Advogado, professor da UFGD e doutor em Direito
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