Campo Grande (MS), Terça-feira, 16 de Junho de 2026

Saúde / Pesquisa

Fiocruz vai produzir medicamento de alto custo para esclerose múltipla no SUS

Produção nacional da cladribina oral deve reduzir custos, ampliar acesso ao tratamento e fortalecer a indústria pública de saúde

21/05/2026

17:00

DA REDAÇÃO

©REPRODUÇÃO

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) passará a produzir no Brasil a cladribina oral, medicamento de alto custo usado no tratamento da esclerose múltipla remitente-recorrente altamente ativa. A medicação, já distribuída pelo Sistema Único de Saúde (SUS), deve ter custo reduzido com a produção nacional, permitindo ampliar o acesso de pacientes ao tratamento.

Comercializada com o nome Mavenclad, a cladribina foi incorporada ao SUS em 2023 para pacientes com esclerose múltipla remitente-recorrente (EMRR) altamente ativa. Esse tipo da doença é caracterizado por surtos frequentes ou progressão acelerada, mesmo quando o paciente já utiliza terapias de base.

Atualmente, o custo médio do tratamento por paciente é de quase R$ 140 mil em cinco anos. A estimativa é que cerca de 3,2 mil pessoas apresentem a forma altamente ativa da doença no Brasil. No total, mais de 30 mil brasileiros convivem com a esclerose múltipla remitente-recorrente, considerada a forma mais comum da enfermidade.

A esclerose múltipla é uma doença crônica e degenerativa que afeta o cérebro e a medula espinhal. A evolução pode ser lenta ou rápida, com diferentes graus de comprometimento. Em casos mais severos, a doença pode causar perda de visão, paralisia e prejuízos cognitivos.

A cladribina é considerada o primeiro tratamento oral de curta duração com eficácia prolongada no controle da EMRR. Por esse perfil terapêutico, o medicamento foi incluído na Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Estudos recentes apresentados no 39º Congresso do Comitê Europeu para Tratamento e Investigação em Esclerose Múltipla (ECTRIMS) indicaram redução de lesão neuronal em pacientes tratados com o medicamento ao longo de dois anos. Outras pesquisas apontaram que 81% dos pacientes conseguiram caminhar sem apoio e que mais da metade não precisou utilizar outro medicamento adicional.

A produção nacional será viabilizada por meio de uma parceria entre o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz), a farmacêutica Merck, responsável pelo Mavenclad, e a indústria química-farmacêutica Nortec.

Segundo a diretora de Farmanguinhos, Silvia Santos, esta será a primeira medicação produzida pelo instituto para o tratamento da esclerose múltipla. Para ela, a iniciativa representa um avanço na capacidade nacional de oferecer terapias inovadoras pelo sistema público.

A parceria reafirma o nosso compromisso com o fortalecimento do SUS e com a promoção do acesso a tratamentos inovadores, produzidos em território nacional. É um caminho importante para a transformação de políticas públicas em cuidado real para quem mais precisa”, afirmou.

O instituto da Fiocruz tem direcionado sua produção a terapias de alto valor, com foco em medicamentos estratégicos para o sistema público e tratamentos voltados a doenças negligenciadas e condições de grande impacto social.

O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, destacou que acordos desse tipo fortalecem a integração tecnológica da Fundação com parceiros nacionais e internacionais. Segundo ele, a produção local também reforça o papel estratégico dos laboratórios públicos na sustentabilidade do SUS.

Consolidar o Complexo Econômico e Industrial da Saúde é garantir a sustentabilidade dos programas do SUS, gerando empregos especializados, reduzindo preços e mantendo a qualidade dos produtos”, afirmou.

Além da cladribina oral, a Fiocruz mantém outros dois acordos em andamento com a Merck. Um deles envolve a produção da betainterferona 1a, também usada no tratamento da esclerose múltipla. O outro trata de um medicamento voltado ao combate da esquistossomose em crianças.

Com a produção nacional da cladribina, o governo federal busca reduzir a dependência externa, ampliar a oferta de tratamentos de alta complexidade e garantir maior previsibilidade no fornecimento de medicamentos estratégicos para pacientes atendidos pelo SUS.


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