Campo Grande (MS), Quinta-feira, 26 de Março de 2026

Política / Serviço

Servidores do Detran-MS aprovam estado de greve e denunciam precarização, terceirização e riscos à segurança

Categoria aponta sucessivos escândalos de corrupção, fragilidade nos sistemas digitais e teme perda da capacidade de fiscalização no órgão

26/03/2026

08:00

DA REDAÇÃO

©DIVULGAÇÃO

Os servidores concursados do Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul) aprovaram, por unanimidade, o estado de greve em assembleia geral extraordinária, elevando a tensão dentro do órgão e abrindo caminho para uma eventual paralisação a qualquer momento. A decisão foi acompanhada de duras críticas à condução administrativa do departamento, com denúncias de precarização dos serviços, avanço da terceirização e enfraquecimento da estrutura pública de fiscalização.

De acordo com a categoria, o Detran-MS vive um processo contínuo de desgaste institucional, agravado por uma sequência de operações que atingiram o órgão nos últimos anos. Entre os episódios citados pelos servidores estão as operações Recurso Privilegiado (2021), Resfriamento (2022), Gravame (2023), Míriade (2023) e Quarto Eixo (2024). Esta última resultou na prisão da servidora comissionada Yasmin Osório Cabral e do despachante David Cloky Hoffamann Chita, réu em investigações relacionadas a fraudes em outros contextos.

Outro fator de insatisfação apontado pelos servidores é uma proposta recente da Secretaria de Administração (SAD), que, segundo a categoria, pode reduzir o poder de fiscalização do Detran-MS. Os trabalhadores também aprovaram a intensificação de atos públicos e denúncias relacionadas às más condições de trabalho, à precarização dos serviços públicos e ao avanço da terceirização em áreas consideradas estratégicas para o funcionamento do órgão.

A digitalização dos serviços também aparece no centro das críticas. Os servidores afirmam que o processo vem sendo conduzido sem a segurança necessária, o que, na avaliação deles, aumenta a exposição a fraudes e compromete a confiabilidade dos sistemas usados no atendimento à população. O temor da categoria é de que a modernização, em vez de fortalecer a estrutura pública, esteja ampliando vulnerabilidades operacionais e administrativas.

Em manifestação divulgada no contexto do movimento, o presidente do Sindetran-MS e da Federação Nacional dos Servidores de Detrans e Agentes de Trânsito Estaduais, Municipais e do Distrito Federal (Fetran), Bruno Alves, afirmou que a mobilização ocorre por necessidade e em defesa da dignidade dos trabalhadores. Segundo ele, o objetivo é dar visibilidade à realidade enfrentada por servidores que atuam diretamente na segurança viária, sob condições inadequadas e com impactos na saúde física e mental.

A insatisfação da categoria ganhou ainda mais peso após o episódio de segurança cibernética registrado no ano passado. Segundo informações obtidas pelo Jornal Midiamax e reproduzidas no material encaminhado, hackers teriam invadido o sistema do Detran-MS e clonado perfis de servidores para a prática de fraudes. Pelo menos 50 alterações em perfis funcionais teriam sido identificadas, o que teria permitido a invasores burlar barreiras de segurança e promover alterações em setores sensíveis do órgão.

Uma mensagem interna enviada aos servidores revelou ainda que até a atendente virtual com suporte de inteligência artificial do Detran-MS, chamada Glória, teve o número (0500) clonado em um esquema de spoofing, prática em que criminosos mascaram o número da ligação para aparentar legitimidade. Conforme o comunicado, os golpistas se passavam por técnicos do órgão e pediam aos funcionários a instalação de programas de acesso remoto, abrindo brecha para novas invasões.

De acordo com relatos internos mencionados no texto, os primeiros reflexos da invasão teriam atingido o setor de habilitação, com casos de liberação de CNHs suspensas. Em seguida, teriam sido afetados também o Renainf, ligado às infrações de trânsito, e a Jari, responsável pela análise de recursos de multas. Há ainda suspeitas de risco envolvendo dados sensíveis de condutores de todo o Estado, embora essa hipótese não tenha sido oficialmente confirmada.

O material também destaca que o Detran-MS está em processo de informatização e que a empresa Inovvati Tecnologia Ltda., antiga PSG, detém atualmente o controle da infraestrutura tecnológica do órgão em contrato de R$ 44,6 milhões. A empresa foi multada pela Controladoria-Geral do Estado (CGE) em R$ 2.557.991,83 por fraude em licitação, em processo administrativo que apontou pagamento de propina a servidores públicos.

Em nota oficial, o Detran-MS negou invasão, alteração de informações ou vazamento de dados, classificando o caso como uma série de incidentes de segurança identificados em 18 de novembro de 2025. O órgão informou que acionou imediatamente os protocolos de defesa cibernética, bloqueou acessos e reforçou que os sistemas seguem monitorados 24 horas por dia. Também afirmou que a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul e a Corregedoria acompanham as investigações técnicas para identificar os responsáveis.

Com a aprovação do estado de greve, o cenário no Detran-MS passa a combinar pressão sindical, questionamentos sobre a gestão do órgão e preocupação crescente com a capacidade de manter serviços seguros, eficientes e confiáveis à população. A mobilização dos servidores tende a ampliar o debate sobre governança, transparência, segurança digital e o papel do Estado na condução de áreas estratégicas do sistema de trânsito em Mato Grosso do Sul.


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