Campo Grande (MS), Quarta-feira, 25 de Março de 2026

Política / Justiça

Vizinhos contestam versão de Bernal e dizem que casa onde fiscal foi morto permanecia fechada na maior parte do tempo

Relatos apontam que imóvel no Jardim dos Estados não aparentava servir como moradia regular do ex-prefeito, que sustenta à polícia viver no endereço e ter reagido a uma invasão

25/03/2026

15:00

DA REDAÇÃO

©DIVULGAÇÃO

A versão apresentada pelo ex-prefeito Alcides Bernal à Polícia Civil sobre o imóvel na Rua Antônio Maria Coelho, em Campo Grande, passou a ser confrontada por relatos de vizinhos e pessoas que convivem com a rotina da região. Segundo testemunhas ouvidas após a morte do fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, a residência que está no centro da disputa patrimonial permanecia fechada na maior parte do tempo e não aparentava ser utilizada como moradia fixa por Bernal

O caso ganhou grande repercussão depois que Roberto Carlos Mazzini foi morto a tiros na tarde de terça-feira (24), durante tentativa de assumir a posse do imóvel, que havia sido arrematado em leilão. Bernal confessou os disparos, alegou legítima defesa e afirmou, em depoimento, que ainda morava no local e também mantinha ali seu escritório de advocacia. A Justiça, no entanto, já manteve o ex-prefeito preso preventivamente enquanto a investigação prossegue. (campograndenews.com.br)

Uma das moradoras da vizinhança, ouvida sob condição de anonimato, declarou que a casa “vivia fechada” e que Bernal aparecia apenas ocasionalmente. Segundo ela, a movimentação no endereço era esporádica e o local dava mais a impressão de servir para alguma atividade pontual, como escritório, do que para residência habitual. Outro relato, de uma gerente de comércio da mesma rua, também indica que o ex-prefeito não era visto com frequência no imóvel e que o endereço permanecia quase sempre com aspecto de fechado. 

Essa mesma comerciante afirmou ainda que houve um episódio anterior, em dezembro do ano passado, envolvendo o ex-prefeito e a utilização de arma de fogo. Conforme o relato, um veículo teria parado em frente à garagem da residência, bloqueando a entrada, e Bernal saiu do imóvel exaltado, reclamando da situação. Segundo a testemunha, ele teria dito que poderia matar o motorista se o carro não fosse retirado e chegou a levantar a camisa para mostrar uma arma, provocando medo entre pessoas que trabalham nas proximidades.

Uma terceira pessoa ouvida pela reportagem reforçou a percepção de que a casa já não funcionava como residência do ex-prefeito. O conjunto desses depoimentos amplia a controvérsia em torno da narrativa de Bernal, que sustenta ter sido surpreendido por uma nova invasão à própria moradia e, por isso, reagido com tiros contra Roberto Carlos Mazzini. (campograndenews.com.br)

Os registros documentais mencionados na apuração também mostram que Bernal possui outros endereços vinculados ao seu nome. No Cadastro Nacional de Advogados (CNA), o endereço profissional do ex-prefeito aparece na Travessa Zezé Flores, no Bairro Santa Fé. Já em um processo judicial relacionado à cobrança de pensão alimentícia, um imóvel no Jardim Paulista foi indicado como local de residência do ex-prefeito. 

Nesse processo, um oficial de justiça relatou ter ido ao imóvel do Jardim Paulista em pelo menos cinco ocasiões, entre setembro e outubro do ano passado, sem conseguir localizar Bernal. Posteriormente, em março deste ano, o mesmo servidor voltou ao local e foi atendido pela ex-mulher do ex-prefeito, Mirian Elzy Gonçalves, que informou residir ali desde 2005 e declarou que Bernal não mora naquele endereço há muitos anos. A informação foi incluída nos autos quando a Justiça tentava cumprir diligência de avaliação do imóvel. 

A casa onde ocorreu o crime foi comprada por Bernal em agosto de 2016, por R$ 1,669 milhão, e, na última avaliação mencionada na reportagem, aparecia com valor estimado em R$ 3.787.057,09. O registro imobiliário descreve um imóvel de alto padrão, com 1.440 metros quadrados de área total e 678,42 metros quadrados de área construída, incluindo garagem para seis carros, guarita, salas amplas, mezanino, escritório, suíte master com closet, piscina, sauna, churrasqueira, bar, quiosque e casa de caseiro. 

Segundo a investigação, o imóvel acabou sendo levado a leilão por causa de dívidas e foi comprado por Roberto Carlos Mazzini, que tentava assumir a posse da propriedade quando foi surpreendido pelos disparos. De acordo com o que já foi apurado, o fiscal estava acompanhado de um chaveiro e reivindicava a posse da residência após a aquisição do bem em leilão da Caixa Econômica Federal.

Em depoimento à polícia, Bernal afirmou que não estava na casa no momento inicial da movimentação, mas disse ter sido avisado por uma empresa de segurança sobre uma suposta nova tentativa de invasão. Ao chegar ao local, segundo sua versão, encontrou Roberto Carlos Mazzini e o chaveiro e reagiu porque se sentiu ameaçado. Ele declarou ainda que a vítima estaria “invadindo novamente” sua casa e afirmou que atirou sem intenção de matar.

A versão da defesa, porém, esbarra no relato do chaveiro, que afirmou à polícia que o ex-prefeito chegou atirando e não deu chance de defesa ao fiscal tributário. Esse depoimento, somado aos relatos de vizinhos sobre a pouca presença de Bernal no imóvel, pode se tornar elemento importante na análise sobre a consistência da alegação de legítima defesa e sobre a dinâmica real da ocupação da casa. 

Com a prisão preventiva já decretada, a investigação agora avança sobre três eixos centrais: a dinâmica do homicídio, a legalidade da posse do imóvel no momento do crime e a veracidade da afirmação de Bernal de que a residência ainda era sua moradia efetiva. Nesse contexto, os relatos de vizinhos e os registros documentais sobre outros endereços do ex-prefeito passam a ganhar peso no inquérito que apura a morte de Roberto Carlos Mazzini.


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