Opinião / Sociedade
Sarah e a culpabilização da mãe como expressão do machismo estrutural em Itumbiara
Tragédia expõe violência como instrumento de posse e revela reação social que insiste em responsabilizar a mulher pela barbárie
14/02/2026
07:00
BOSCO MARTINS
Bosco Martins*
O assassinato dos filhos de Sarah Araújo, em Itumbiara, seguido do suicídio do ex-marido, não foi um surto. Foi a face cruel do machismo estrutural: a violência como punição final pela ousadia de uma mulher de recomeçar. Thales Machado não aceitou o fim. E, na lógica perversa da posse, decidiu que, se não podia ter a família, ninguém teria. Usou os filhos para ferir a mãe para sempre.
Mas o que choca ainda mais é a reação social. Enquanto Sarah tenta sobreviver à perda — enterrar os filhos, lidar com a ausência, aprender a respirar de novo — a internet a julga. Comentários cruéis questionam suas roupas, suas escolhas, sua vida. Espalham a insinuação de que “ela provocou”, como se terminar um relacionamento justificasse assassinato. Como se uma mulher não tivesse o direito de sair de um casamento que não queria mais.
Esse comportamento escancara o quanto o machismo ainda dita as regras. A mesma cultura que criou o homem que mata é a que agora busca uma culpada: a mulher que sobrevive. Sarah é punida duas vezes: pela perda dos filhos e pela condenação pública. Perguntam “por que não ficou?”, como se a permanência em um relacionamento fosse obrigação. Como se a vida dela pertencesse a ele.
Não existe mágoa que autorize um pai a matar. Não existe separação que transforme assassinato em algo compreensível. O que houve foi sentimento de posse, foi ego ferido, foi a recusa em aceitar que uma mulher pode, sim, recomeçar.
Enquanto a sociedade continuar tratando ameaças como “desespero” e não como alerta, enquanto mulheres forem culpadas por existir, continuaremos alimentando a lógica cruel de que o amor justifica a violência.
Hoje, o que existe é a dor de uma mãe. E a revolta de saber que tudo foi anunciado — e mesmo assim ninguém impediu.
Que Sarah encontre forças para se reconstruir. E que a culpa, essa, fique com quem realmente a merece.
*Bosco Martins é escritor e jornalista
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