Campo Grande (MS), Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2026

Política / Justiça

Despachante acusado de liderar esquema no Detran-MS depõe após dois anos foragido

Processo apura esquema de liberação irregular de veículos mediante propina; investigação começou em 2023 e envolve ao menos quatro réus

30/01/2026

16:45

DA REDAÇÃO

David, Yasmin, Hudson e Édson

O despachante David Cloky Hoffman Chita, que permaneceu dois anos foragido, participou nesta sexta-feira (30) da primeira audiência de instrução do processo que apura fraudes no Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul. A oitiva ocorreu na 3ª Vara Criminal de Campo Grande e integra uma ação penal que tramita em segredo de Justiça.

Além de David, foram ouvidos os outros três réus: a ex-servidora comissionada do Detran-MS Yasmin Osório Cabral, que responde em prisão domiciliar; e os despachantes Hudson Romero Sanches e Edilson Cunha Nogueira. Também foram ouvidas testemunhas de defesa e indicadas pelo Ministério Público, responsável pela acusação.

Esquema investigado

Segundo a investigação, o grupo atuava na liberação irregular de veículos com restrições administrativas no sistema do Detran-MS, mediante pagamento de propina. As fraudes vieram à tona após denúncia interna de um servidor, que identificou 29 liberações fora do padrão realizadas em fevereiro de 2024 com seu login e senha, inclusive em dias em que não estava em serviço.

As baixas no sistema ocorreram em 9 e 15 de fevereiro e traziam registros genéricos como “OK VISTORIA”. A apuração interna rastreou um computador utilizado para 27 liberações indevidas em um único dia, equipamento atribuído à servidora comissionada Yasmin. Consta ainda que, um dia antes das fraudes, documentos de 25 veículos teriam sido baixados por David, Hudson e Edilson, todos ligados ao mesmo escritório de despachante.

Defesas

Após a audiência, a defesa de Yasmin Osório Cabral afirmou que ela nega participação. As advogadas Isabela Buchara e Celso Pajoro sustentam que documentos e testemunhas demonstram a inocência da ex-servidora e que novas oitivas ainda ocorrerão. Yasmin foi presa em julho de 2024, mas obteve prisão domiciliar após descobrir gravidez poucos dias depois de ingressar no sistema prisional.

O advogado de David, Mateus Tomazini dos Santos, declarou que a defesa será exclusivamente nos autos e negou qualquer negociação de delação premiada. Questionado sobre o período em que o cliente ficou foragido, afirmou haver receio de prisão e problemas graves de saúde que exigem uso contínuo de medicamentos. A defesa informou que já impetrou habeas corpus, inclusive um recente relacionado à realização da audiência.

Hudson Romero Sanches responde em liberdade, porém submetido a medidas cautelares: está impedido de se aproximar do Detran-MS ou atuar em procedimentos do órgão, além de ter o crachá funcional recolhido. Seu advogado, Mikhail Monteiro, avaliou positivamente a audiência e disse que não há provas contra o cliente; das testemunhas ouvidas, apenas uma citou o nome de Hudson sem atribuir crime. A defesa de Edilson Cunha Nogueira não se manifestou após a sessão.

Acusação e tipificação

A acusação aponta inserção de dados falsos em sistema público e organização criminosa. Já as defesas alegam ausência de acesso técnico e de função que permitissem a prática das fraudes, sustentando que alguns réus atuavam como prepostos.

Tentativa de delação e acusações políticas

Em 2024, David chegou a tentar firmar delação premiada e divulgou vídeo alegando envolvimento de políticos do PSDB nas fraudes. Ele citou o deputado federal Beto Pereira e o ex-diretor do Detran-MS Juvenal Neto, ex-prefeito de Nova Alvorada do Sul. Por envolver autoridades com foro, o MPMS encaminhou o material à Procuradoria-Geral da República, que arquivou por falta de elementos.

Como funcionaria o esquema, segundo a polícia

De acordo com a investigação policial, o esquema seria comandado por David, em conluio com a servidora Yasmin. A ex-servidora teria obtido clandestinamente senhas de outros servidores, acessado o sistema, identificado caminhões com restrições e repassado informações ao despachante, que cobraria cerca de R$ 10 mil para liberar cada veículo. Após o pagamento, as restrições eram retiradas e a documentação baixada. A polícia afirma ter ao menos 200 veículos identificados como liberados irregularmente.

Próximos passos

Ao todo, 40 pessoas foram arroladas como testemunhas; seis foram ouvidas nesta primeira sessão, além dos réus. Nova audiência foi marcada para 2 de março, quando serão colhidos novos depoimentos.


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