Campo Grande (MS), Sexta-feira, 26 de Junho de 2026

Direitos / Território

Famílias do Quilombo Dezidério Felipe de Oliveira recebem título definitivo após 65 anos

Entrega feita por Lula na Fazenda Itamarati foi considerada marco histórico para comunidade quilombola de Dourados

26/06/2026

16:00

DA REDAÇÃO

©DIVULGAÇÃO

Após mais de seis décadas de espera, famílias do Quilombo Dezidério Felipe de Oliveira, localizado no Distrito Picadinha, em Dourados, receberam o título definitivo de suas terras. A entrega foi feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante solenidade realizada na quinta-feira (25), na Fazenda Itamarati, em um ato considerado histórico para a regularização fundiária e para a reparação de direitos em Mato Grosso do Sul.

O deputado estadual Pedro Kemp (PT) acompanhou a cerimônia e classificou a entrega como “um sonho realizado” e um “marco histórico em MS”. Para o parlamentar, a conquista representa uma reparação à comunidade negra do Estado e só foi possível pela atuação conjunta de lideranças locais, do Ministério Público Federal (MPF), do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).

A regularização encerra uma longa trajetória de disputas judiciais e reivindicações. O processo tem origem em 1951, quando foi apresentada a primeira ação contestando um inventário considerado fraudulento sobre as terras. A área pertencia ao patriarca Dezidério Felipe de Oliveira, apontado como legítimo proprietário de 3.748 hectares na região da Cabeceira do São Domingos, em Dourados.

Durante a solenidade, a quilombola Eva Patrícia, servidora federal, analista técnica do Ministério da Saúde e mestranda em Fronteiras e Direitos Humanos pela FADIR/UFGD, fez um discurso emocionado ao lembrar a trajetória de sua família. Ela citou a resistência de gerações e destacou o papel de sua bisavó, filha de Dezidério, na busca pelo reconhecimento do território.

“A primeira ação judicial contestando o inventário fraudulento foi em 1951. Em 1970, minha bisa, filha de Dezidério, ingressou pela última vez no TJ-MS aqui em Dourados. Em 2002, o presidente Lula assinou o decreto nº 4.887. Agora, após 65 anos, Lula vem à Itamarati e entrega para a gente o nosso título. A Justiça foi feita!”, afirmou.

Um dos momentos de destaque foi a homenagem ao procurador do MPF, Marco Antônio Delfino de Almeida, reconhecido publicamente pelo trabalho técnico e jurídico na mediação do processo e na defesa do direito territorial da comunidade. Após ser citado por Eva Patrícia, ele foi convidado por Lula a subir ao palco e recebeu deferência especial do presidente.

No discurso, Lula destacou a importância da presença de negros e negras em postos estratégicos do sistema de Justiça e reafirmou o compromisso do governo com políticas de reparação e defesa do interesse coletivo. A atuação do procurador foi apontada como fundamental para garantir que a comunidade tivesse seu direito reconhecido.

Para Pedro Kemp, a entrega do título definitivo representa um divisor de águas para a reforma agrária, a igualdade racial e a garantia dos direitos humanos em Mato Grosso do Sul. O deputado também destacou a mobilização de lideranças como Eva Patrícia e Ramão Castro, que relatou a história de luta da família até a conquista da titulação.

O parlamentar ressaltou ainda o trabalho das equipes do Incra, sob coordenação de Paulinho Roberto, e do MDA, representado pela superintendente Marina Nunes. Segundo Kemp, a regularização mostra a importância da ação do poder público para corrigir injustiças históricas e assegurar segurança jurídica às comunidades tradicionais.

Em publicação nas redes sociais, o procurador Marco Antônio Delfino de Almeida classificou o caso como exemplo de “racismo fundiário”. Segundo ele, a história do Quilombo Dezidério Felipe de Oliveira mostra como mecanismos formais foram usados para legitimar a retirada de terras de uma comunidade vulnerável, por meio de dívidas inexistentes e de um processo de partilha marcado por fraude.

O procurador afirmou que a entrega da titulação representa uma vitória da memória e da justiça. Para ele, a resistência da família ao longo de quase 100 anos demonstrou que a comunidade nunca aceitou a perda do território que lhe pertencia por direito.

Com a entrega do título, as famílias do Quilombo Dezidério Felipe de Oliveira passam a ter reconhecimento definitivo sobre a área. A conquista fortalece a permanência da comunidade no território, preserva sua história e consolida uma reparação aguardada por gerações no interior de Mato Grosso do Sul.


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