Justiça / Tecnologia
OAB-MS suspende advogados por suspeita de uso de IA para interferir em decisões
Medida liminar atinge dois profissionais por 23 dias após apuração sobre comandos ocultos em petições enviadas ao Judiciário
18/06/2026
20:30
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
A Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Mato Grosso do Sul (OAB-MS) suspendeu, de forma liminar, o exercício profissional dos advogados Lucas Fernandes Nogueira Brandolis e Matheus Pelzl Ferreira por 23 dias, a partir desta quinta-feira, 18 de junho. A decisão foi tomada em procedimento que apura o suposto uso de comandos ocultos em documentos enviados à Justiça para influenciar sistemas de inteligência artificial usados na análise de processos.
A medida foi assinada pelo secretário-geral do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-MS, Luiz Renê do Amaral. Segundo a entidade, a suspensão preventiva foi adotada diante da gravidade dos fatos investigados e permanecerá válida até o julgamento definitivo do pedido dentro do tribunal interno da Ordem.
Ao fim do prazo de 23 dias, o Tribunal de Ética e Disciplina deverá realizar uma sessão para decidir se a suspensão será mantida, prorrogada ou encerrada. Os advogados também podem recorrer da decisão administrativa ou buscar medidas judiciais para tentar reverter os efeitos da liminar.
A apuração envolve a suspeita de uso de uma técnica conhecida como prompt injection, expressão usada para descrever a inserção de comandos ocultos em arquivos ou textos com o objetivo de influenciar respostas geradas por sistemas de inteligência artificial. No caso investigado, esses comandos teriam sido colocados em petições judiciais.
De acordo com a OAB-MS, o caso teve origem após o Superior Tribunal de Justiça (STJ) identificar, em processos e petições, a presença desse tipo de instrução oculta. A partir disso, o tribunal abriu procedimento administrativo para apurar os fatos. Segundo a Ordem, a investigação apontou que os advogados teriam criado o mecanismo.
A defesa dos profissionais, representada pelo advogado Raphael Chaia, afirmou que eles ainda não haviam sido intimados da decisão e que apresentarão os esclarecimentos no momento adequado. A defesa também negou irregularidades e sustentou que as acusações não correspondem à realidade.
“Todas as provas, inclusive a confissão do ex-funcionário responsável pela inserção de prompts sem o conhecimento dos integrantes do escritório, que já estavam à disposição das autoridades, serão apresentadas à presidência da OAB-MS”, afirmou a defesa.
Segundo o STJ, o prompt injection é uma técnica usada para tentar interferir no funcionamento de sistemas de inteligência artificial, especialmente os chamados grandes modelos de linguagem. O método consiste em inserir comandos ocultos em documentos comuns, como petições, recursos ou manifestações processuais.
Essas instruções podem não ser percebidas visualmente por quem lê o documento, mas podem ser interpretadas por sistemas automatizados durante a análise do texto. Em tese, o objetivo seria fazer com que a inteligência artificial ignore regras previamente definidas e produza respostas favoráveis a uma das partes.
O caso chama atenção por envolver uma possível tentativa de manipulação de ferramentas tecnológicas aplicadas ao ambiente jurídico. A discussão também amplia o debate sobre segurança, transparência e limites éticos no uso de inteligência artificial por advogados, escritórios e instituições do sistema de Justiça.
A investigação segue em andamento no âmbito da OAB-MS. Até o julgamento definitivo, a suspensão tem caráter preventivo e não representa condenação final dos advogados.
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