Polícia / Direitos Humanos
Associação classifica como “extermínio” morte de mulher trans em ação da PM no Centro de Campo Grande
ATTMS cobra apuração técnica e independente após policial efetuar quatro disparos durante ocorrência registrada como intervenção de agente do Estado
16/02/2026
21:30
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A morte da mulher trans Gabriella dos Santos, 27 anos, baleada por um policial militar nesta tarde de segunda-feira (16), no Centro de Campo Grande, provocou manifestação pública da ATTMS (Associação das Travestis e Transexuais de Mato Grosso do Sul). Em nota assinada pela coordenadora interina Manoela Kika Rodrigues Veiga, a entidade classificou o caso como “extermínio” e solicitou investigação rigorosa por parte do Ministério Público Estadual e demais órgãos competentes.
O episódio ocorreu no cruzamento da Avenida Calógeras com a Rua 15 de Novembro, nas proximidades da Praça Santo Antônio. Conforme registro policial, equipe do 1º Batalhão da Polícia Militar atendia ocorrência para averiguar pessoas em atitude suspeita. Durante a abordagem e prisão de um dos envolvidos, houve tumulto.
De acordo com o boletim, em meio à confusão, Gabriella entrou em confronto com os policiais. A arma de um militar caiu durante a briga — informação confirmada por imagens de câmeras de segurança — e foi recolhida por ela, que a teria apontado na direção da equipe. Diante da situação, outro policial efetuou quatro disparos, atingindo peito, abdômen e perna. A vítima foi socorrida pelo Corpo de Bombeiros, mas morreu na UPA Coronel Antonino.
A ocorrência foi registrada, entre outros pontos, como morte decorrente de intervenção de agente do Estado.
Durante a ação, um soldado sofreu escoriação próxima ao nariz e arranhão no punho esquerdo. A perícia recolheu as armas dos policiais envolvidos. Três pessoas foram conduzidas à delegacia por desobediência e desacato. O delegado Felipe Paiva acompanhou os trabalhos no local ao lado da Corregedoria da Polícia Militar. O caso segue sob investigação.

Na manifestação, a associação afirmou lamentar profundamente o ocorrido e destacou que a expectativa de vida da população trans no Brasil gira em torno de 35 anos, segundo levantamentos citados pela entidade. O texto também menciona que o país figura entre os que mais registram assassinatos de pessoas trans no mundo.
A ATTMS reconheceu que apontar arma contra policiais não é conduta adequada e que agentes podem agir em legítima defesa. No entanto, sustenta que a proporcionalidade do uso da força precisa ser analisada tecnicamente.
“Quatro disparos de arma de fogo não podem ser automaticamente compreendidos como legítima defesa sem apuração minuciosa”, afirma a nota.
A entidade argumenta que há histórico de violência estrutural contra travestis e transexuais em Campo Grande, mencionando denúncias anteriores de agressões físicas e verbais. Também informou que identificou comentários transfóbicos nas redes sociais relacionados ao caso e que levará eventuais manifestações criminosas às autoridades.
No texto, a associação declara respeito à instituição Polícia Militar e aos profissionais que atuam dentro da legalidade, mas ressalta que eventuais excessos devem ser apurados com transparência e responsabilidade. “A farda não pode servir de escudo para abusos”, registra o documento.
Segundo dados mencionados no registro policial, este é o 13º caso no ano classificado como morte por intervenção de agente do Estado em Mato Grosso do Sul, sendo o 6º em Campo Grande.
A investigação deverá esclarecer as circunstâncias que antecederam os disparos, a dinâmica do confronto, a eventual necessidade do uso de armamento letal e a adequação da resposta policial diante do cenário apresentado.
O Ministério Público e a Corregedoria da PM acompanham o caso.

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