Investigação / Finanças
Fundo ligado ao Master movimentou recursos com fintech investigada por vínculo com PCC
Gold Style, administrado pela Reag Trust, aparece em relatórios do Coaf com transações envolvendo BK Bank, Entre Investimentos e debêntures sigilosas
11/06/2026
09:30
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
Um mesmo fundo de investimento aparece no centro de diferentes movimentações financeiras investigadas por órgãos de controle. O Gold Style Fundo de Investimento em Direito Creditório, administrado pela Reag Trust, fez transações com a BK Bank, fintech apontada como possível “banco paralelo” do PCC, e também com a Entre Investimentos e Participações, empresa citada em repasses ligados ao filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
As operações constam em relatórios de inteligência financeira do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), que apontam suspeitas de uso de estruturas complexas para ocultar beneficiários, dificultar a identificação dos envolvidos e tornar mais difícil o rastreamento do dinheiro. O fundo também aparece em movimentações de debêntures privadas e sigilosas, com indícios de irregularidades.
O Gold Style foi constituído em 1º de abril de 2020, com aporte inicial de R$ 480,1 milhões, segundo dados públicos da CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Em maio de 2024, o patrimônio líquido do fundo havia saltado para R$ 1,84 bilhão. Conforme a CVM, a situação do fundo aparece como “em funcionamento normal”.
A administradora do fundo, Reag Trust, é citada em investigações da Polícia Federal sobre a estrutura financeira montada em torno do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro. Segundo a PF, o esquema teria sido usado para fraudar carteiras de crédito e inflar ativos. A própria Reag Trust também foi liquidada em janeiro. Procurada, a empresa informou que não comentaria o caso.
Um dos relatórios do Coaf registra lançamentos de R$ 133,6 milhões da BK Bank para o Gold Style em 2023. Outros repasses entre a fintech e o fundo, realizados em 2024 e 2025, somam R$ 12,9 milhões. Ao todo, as transações identificadas entre as partes chegam a pelo menos R$ 146,5 milhões.
A BK Bank é uma das principais investigadas na Operação Carbono Oculto, que apura a infiltração do PCC no mercado financeiro. De acordo com a Polícia Federal, a Receita Federal e o Ministério Público de São Paulo, a fintech teria operado por meio de contas concentradoras, conhecidas como contas-bolsão, usadas para reunir depósitos de diferentes clientes e dificultar o rastreio da origem dos recursos.
As investigações apontam que a estrutura teria sido usada por empresas de fachada ligadas a grupos criminosos, inclusive no setor de combustíveis. Uma dessas empresas é a Aster Petróleo, também investigada na Carbono Oculto. Segundo o Coaf, o Gold Style movimentou R$ 311,7 milhões com a companhia.
Outro relatório registra transações de R$ 20 milhões entre o Gold Style e a Entre Investimentos e Participações. A empresa teria sido usada por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, em repasses destinados ao filme “Dark Horse”, produção sobre a vida de Jair Bolsonaro que envolve os filhos do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Reportagens anteriores apontaram que Flávio Bolsonaro buscou Daniel Vorcaro para garantir repasses ao projeto audiovisual. O valor inicialmente tratado seria de R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões teriam sido transferidos. Parte da operação teria passado da Entre Investimentos para o fundo Havengate.
Em nota, o grupo Entre afirmou que suas operações estão em conformidade com as normas e regulamentações do setor financeiro. A empresa disse ainda manter compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento da legislação, permanecendo à disposição das autoridades competentes.
O Gold Style também aparece em transações de debêntures privadas em que a Reag atuou como emissora, escrituradora ou agente fiduciário. Uma comunicação da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, ao Coaf identificou 11 debêntures ligadas a essas operações, com valor total de R$ 3,6 bilhões.
Debêntures são títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos junto a investidores. No caso citado pelos relatórios, as debêntures eram privadas e sigilosas, o que impede a identificação pública de quem estava por trás das movimentações.
Segundo a comunicação enviada à Coaf, foram observados padrões semelhantes em emissões de debêntures, com valores, datas e remunerações parecidos, além de contratos vencidos e liquidados com valor zero, diferenças de preços e transações cruzadas entre fundos e bancos.
Ao todo, as operações envolveram 12 fundos, entre eles o Gold Style, e três bancos: Master, Pleno e Digimais. O Banco Pleno, ligado a um ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima, foi liquidado pelo Banco Central em fevereiro. O Digimais, associado ao bispo Edir Macedo, enfrenta risco de liquidação.
Os relatórios também citam uma movimentação de R$ 180 milhões entre o Gold Style, a Super Empreendimentos e o Máxima Fundo de Investimento Multimercado. A Super Empreendimentos é apontada como braço financeiro de Daniel Vorcaro, com bens da família vinculados à empresa. Já o fundo Máxima tinha o Banco Master como responsável.
A B3 afirmou que comunica diariamente eventuais discrepâncias, inconsistências ou indícios de irregularidade à BSM, seu braço de autorregulação, e ao Coaf. A defesa de Daniel Vorcaro informou que não se manifestará. O Digimais disse que não comentará o caso em razão do processo de venda em curso. O Banco Pleno não respondeu aos questionamentos.
A apuração reforça o papel dos fundos de investimento nas investigações sobre movimentações financeiras de alto valor e difícil rastreamento. No centro do caso, o Gold Style aparece como ponto de conexão entre operações ligadas ao Banco Master, à fintech investigada por suposto vínculo com o PCC, a repasses relacionados ao filme “Dark Horse” e a debêntures privadas sob suspeita.
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