Campo Grande (MS), Terça-feira, 24 de Março de 2026

Política / Justiça

Ex-prefeito Alcides Bernal mata servidor estadual durante disputa por imóvel leiloado em Campo Grande

Caso envolve posse de casa arrematada, morte de Roberto Carlos Mazzini e alegação de legítima defesa por Bernal

24/03/2026

17:30

DA REDAÇÃO

©ARQUIVO

A morte do servidor público estadual Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, a tiros, na tarde desta terça-feira (24), em Campo Grande, provocou forte repercussão em Mato Grosso do Sul e recolocou no centro do debate público o nome do ex-prefeito da Capital Alcides Jesus Peralta Bernal, de 60 anos. Segundo as informações reunidas até o momento, Bernal é apontado como autor dos disparos ocorridos em uma residência localizada na Rua Antônio Maria Coelho, na região do Jardim dos Estados, imóvel que já lhe pertenceu, mas que havia sido arrematado em leilão pela própria vítima.

De acordo com os relatos apresentados, Roberto Carlos Mazzini foi ao local durante a tarde, acompanhado de um chaveiro, com o objetivo de tomar posse da propriedade. Foi nesse contexto que ocorreu o desentendimento que terminou em violência letal. As informações iniciais indicam que o ex-prefeito teria se recusado a entregar o imóvel e, no curso da discussão, efetuado disparos contra o servidor. A vítima foi atingida e caiu ainda no local.

O Corpo de Bombeiros foi acionado por volta das 14h e realizou manobras de reanimação por cerca de 25 minutos, mas Mazzini não resistiu aos ferimentos. Conforme o relato do tenente Farias, os tiros atingiram a região da costela, com perfuração transfixante, e a parte dorsal. Os bombeiros identificaram três orifícios, embora a avaliação inicial apontasse para a possibilidade de dois disparos. A morte foi confirmada ainda no local, diante da atuação das equipes de resgate e das autoridades policiais.

Após o crime, Alcides Bernal deixou o imóvel e se apresentou espontaneamente à Depac Centro. O chaveiro que acompanhava a vítima e teria presenciado o episódio foi encaminhado ao Cepol (Centro Integrado de Polícia Especializada) para prestar esclarecimentos. Equipes da Polícia Militar, da Polícia Civil, do Corpo de Bombeiros, da perícia e de serviços funerários estiveram no endereço, enquanto familiares de Roberto Carlos Mazzini, abalados, acompanharam o trabalho policial.

A principal linha de defesa apresentada até aqui por Bernal é a de legítima defesa. Ao site citado no material reunido, o ex-prefeito afirmou que reagiu para se proteger depois de ter sido avisado de que o imóvel estaria sendo novamente invadido. Segundo sua versão, a porta da sala estaria sendo arrombada quando ele chegou ao local e, ao ser visto, teria sido alvo de tentativa de agressão. Em entrevista reproduzida nas informações disponíveis, Bernal declarou que aquela seria a terceira vez que o imóvel teria sido alvo de invasão e sustentou que precisou reagir para se defender.

A tese foi reforçada publicamente por seu advogado, Wilton Edgar Acosta, que afirmou que o ex-prefeito foi alertado por empresa de segurança sobre a situação na residência. Segundo a defesa, ao chegar ao endereço, Bernal se deparou com a porta sendo arrombada, teria sido agredido e ameaçado, e por isso reagiu com disparos. O advogado ressaltou que esse é, no momento, o principal argumento jurídico sustentado pela defesa. Também confirmou que o ex-prefeito possui porte de arma. Como Bernal é formado em Direito, a defesa observou ainda que, em caso de manutenção da prisão, ele teria direito a sala especial, por possuir ensino superior completo e inscrição profissional anterior.

No centro da tragédia está um imbróglio patrimonial e judicial em torno da propriedade onde o homicídio ocorreu. As informações reunidas apontam que o imóvel foi levado a leilão em junho de 2025, em razão de dívidas atribuídas a Bernal. Um dos relatos menciona que a casa foi arrematada por Roberto Carlos Mazzini após execução relacionada a uma dívida de pensão alimentícia superior a R$ 112 mil, conforme determinação da 1ª Vara da Família e Sucessões de Palmas (TO), onde residia, à época, o filho do ex-prefeito. Nesse processo, consta que havia sido firmado acordo anterior prevendo o desconto de três salários mínimos diretamente dos subsídios recebidos por Bernal, inclusive do 13º salário, com depósito em favor do filho. Com a cassação do mandato em 2014, ele teria deixado de cumprir a obrigação, acumulando o débito que posteriormente resultou em medidas de constrição patrimonial e, por fim, no leilão da residência.

Outra frente judicial relacionada ao mesmo imóvel também aparece nas informações acima. Segundo o material reunido, a casa teria sido igualmente atingida por penhora decorrente de condenação de Bernal em ação de improbidade ligada aos convênios firmados com Omep e Seleta durante sua gestão na Prefeitura de Campo Grande, quando, segundo denúncia do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, os instrumentos teriam sido utilizados para contratação de pessoal sem concurso, em desacordo com a finalidade formal das parcerias e com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Nessa ação, o ex-prefeito foi condenado, em 2022, ao pagamento de multa civil de R$ 1 milhão, valor posteriormente corrigido para R$ 1.928.668,74, o que também resultou em medida de penhora sobre o imóvel, então avaliado em R$ 3,7 milhões. Paralelamente, a Caixa Econômica Federal teria levado a casa a leilão por R$ 2,4 milhões, em razão de inadimplência ligada ao financiamento.

Esse conjunto de disputas ajuda a explicar por que a posse da residência se tornou um ponto sensível. De acordo com o material, Roberto Carlos Mazzini estava no local com documentação de notificação datada de fevereiro deste ano. Embora não haja confirmação, nas informações reunidas, de que ele tenha formalizado notificação anterior diretamente a Bernal, havia processo em andamento pedindo cumprimento de sentença relacionado ao imóvel. Assim, o episódio não teria ocorrido de forma aleatória, mas em meio a um contexto de litígio patrimonial e de execução judicial já conhecido.

A vítima, Roberto Carlos Mazzini, era fiscal tributário estadual vinculado à Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz) de Mato Grosso do Sul. Segundo as informações disponíveis, ele atuava no serviço público desde pelo menos 2007 e também tinha atuação empresarial no Estado. O material aponta ainda que ele possuía registro cancelado na OAB/MS e recebia remuneração superior a R$ 59 mil mensais, conforme dados do Portal da Transparência citados nas informações acima. Sua morte causou forte repercussão entre colegas de carreira e no meio institucional.

O sindicato que representa os auditores emitiu nota de pesar classificando o caso com profunda consternação e indignação. Na manifestação, a entidade definiu Mazzini como servidor dedicado, pai de família e pessoa honrada, afirmando que sua morte deixa lacuna irreparável tanto na família quanto em toda a categoria profissional, que passou a viver um momento de luto. A nota amplia a dimensão institucional do caso, ao mostrar que a morte ultrapassa a esfera individual e afeta uma carreira de Estado diretamente ligada à arrecadação e à fiscalização tributária.

Além do impacto humano e jurídico, o episódio reacende a trajetória pública controversa de Alcides Bernal. Ex-radialista, ele foi vereador de Campo Grande por dois mandatos e, em 2010, elegeu-se deputado estadual com 20.910 votos, sendo um dos mais votados do pleito. Em 2012, venceu a eleição para a Prefeitura de Campo Grande ao derrotar Edson Girot no segundo turno, com 62,55% dos votos válidos. Seu governo, entretanto, foi marcado por forte crise política. Em março de 2014, Bernal foi cassado pela Câmara Municipal, tornando-se o primeiro prefeito da história da Capital sul-mato-grossense a sofrer essa punição. Seu vice, Gilmar Olarte, assumiu o comando do Executivo. Horas após obter liminar para retornar ao cargo, aliados chegaram a ocupar o prédio da prefeitura, mas a decisão acabou revertida pelo Tribunal de Justiça, mantendo Olarte. Somente em 25 de agosto de 2015, Bernal conseguiu retornar ao cargo, onde permaneceu até o fim do mandato, sem conseguir se reeleger em seguida.

Esse passado político dá ao caso proporção ainda maior. Não se trata apenas de um homicídio com repercussão policial. O fato de o suspeito ser um ex-prefeito da Capital e personagem central de disputas institucionais relevantes em Mato Grosso do Sul amplia o interesse público sobre a investigação, sobre a tese de defesa e sobre a cadeia de acontecimentos que culminou na morte de um servidor estadual dentro de um imóvel objeto de leilão e de longa disputa judicial.

No campo processual, a investigação deverá se concentrar em pontos decisivos: a dinâmica exata do confronto, a legalidade da presença de cada uma das partes no imóvel, a existência de eventual tentativa de agressão contra Bernal, o contexto de cumprimento ou não de ordem judicial relacionada à posse da casa, o número de disparos efetuados, a distância dos tiros e os depoimentos do chaveiro e de demais testemunhas. A alegação de legítima defesa dependerá da reconstituição detalhada dos fatos, de laudos periciais e da coerência entre a versão apresentada e os elementos técnicos produzidos pela investigação.

Também será relevante para o andamento do caso a apuração sobre a situação dominial efetiva do imóvel na data do crime. As informações acima indicam que a residência já não pertencia mais a Bernal, ao menos sob a ótica do leilão mencionado, o que pode influenciar a leitura jurídica sobre eventual posse, resistência à entrada no local e limites legais de reação armada. Ao mesmo tempo, a defesa insiste na narrativa de que o ex-prefeito teria sido avisado de uma invasão em curso e reagido a uma agressão. Esse contraste entre a versão defensiva e o contexto de aquisição da casa pela vítima tende a ser um dos núcleos centrais do processo.

O caso também expõe, de forma dramática, como disputas patrimoniais judicializadas podem escalar quando não há mediação institucional suficiente ou quando uma das partes decide enfrentar pessoalmente uma situação de conflito. O fato de a vítima ter ido ao endereço acompanhada de um chaveiro, para tomar posse de uma casa arrematada em leilão, e de o encontro ter terminado com disparos fatais, transforma a ocorrência em um episódio de grande gravidade não apenas criminal, mas simbólica.

Com a apresentação de Bernal à polícia, o encaminhamento inicial das autoridades passa a depender das providências da Polícia Civil, da análise do flagrante, da coleta de depoimentos e do resultado da perícia. A depender do entendimento da autoridade policial e do Ministério Público, a tese de legítima defesa poderá ser acolhida, rejeitada ou relativizada, mas, neste momento, a única certeza é que um conflito por imóvel terminou com a morte de um servidor estadual e com forte abalo político e institucional em Campo Grande.

A tragédia encerra o dia com um conjunto de perguntas ainda em aberto: se Roberto Carlos Mazzini estava apenas exercendo direito decorrente do leilão; se Bernal de fato sofreu ameaça iminente; se havia ordem prática de desocupação ou cumprimento de posse em curso; e se a reação armada poderia ser juridicamente sustentada diante das circunstâncias. Essas respostas dependerão da investigação oficial. Enquanto isso, o caso já entra para o noticiário policial, político e judiciário como um dos episódios de maior repercussão do ano em Mato Grosso do Sul.


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