Campo Grande (MS), Quinta-feira, 18 de Junho de 2026

Saúde / Infância

Cardiopatia congênita atinge até 10 bebês a cada mil nascimentos

Alteração no coração pode surgir nas primeiras semanas da gestação e exige atenção a sinais como cansaço nas mamadas e pele arroxeada

18/06/2026

07:30

ANDERSON ESTEVAN

A cardiopatia congênita está entre as malformações mais frequentes diagnosticadas na infância e pode afetar cerca de 8 a 10 crianças a cada mil nascidos vivos. A condição corresponde a alterações na estrutura ou no funcionamento do coração formadas ainda durante a gestação e, em casos mais graves, pode exigir intervenção logo nos primeiros dias de vida.

No Brasil, estimativas citadas pelo Departamento Científico de Cardiologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Pediatria apontam que mais de 21 mil bebês podem precisar de cirurgia para sobreviver. A gravidade varia bastante: há casos leves, acompanhados apenas com consultas periódicas, e quadros complexos, que exigem medicamentos, cateterismo ou cirurgia cardíaca.

Segundo o médico Anderson Estevan, professor da pós-graduação em Cardiologia da Afya Goiânia, a cardiopatia congênita começa a se formar, geralmente, nas primeiras semanas da gravidez, justamente no período em que o coração do bebê está em desenvolvimento. Embora a criança já nasça com a alteração, nem sempre o diagnóstico ocorre imediatamente.

Em alguns pacientes, principalmente quando o defeito cardíaco é discreto ou provoca poucos sintomas, a descoberta pode acontecer meses ou anos depois. Por isso, especialistas reforçam a importância do acompanhamento no pré-natal, dos exames ao nascer e da observação dos sinais de alerta ao longo da infância.

A condição não é, necessariamente, hereditária. De acordo com Anderson Estevan, algumas cardiopatias estão associadas a alterações genéticas, síndromes ou histórico familiar, mas a maior parte dos casos não apresenta uma herança direta identificável. “Muitas vezes, a origem é multifatorial, envolvendo fatores genéticos, maternos, ambientais ou causas que ainda não são completamente conhecidas”, explica.

Entre os tipos mais comuns estão a comunicação interatrial (CIA), a comunicação interventricular (CIV), a persistência do canal arterial (PCA), a Tetralogia de Fallot, a coarctação da aorta e a transposição das grandes artérias. Cada uma dessas alterações interfere de forma diferente na circulação sanguínea e no funcionamento do coração.

Nos bebês, os principais sinais de alerta incluem cansaço durante as mamadas, dificuldade para ganhar peso, respiração acelerada, suor excessivo e coloração arroxeada na pele ou nos lábios. Em crianças maiores e adultos, podem surgir falta de ar, cansaço aos esforços, palpitações, tonturas e episódios de desmaio.

O diagnóstico precoce é apontado como um dos principais fatores para melhorar o prognóstico. “Quanto mais cedo a cardiopatia é identificada, maiores são as chances de planejar o tratamento correto, reduzir complicações e proporcionar melhor qualidade de vida ao paciente”, afirma Anderson Estevan. Segundo o especialista, as formas que aparecem ainda no período neonatal costumam ser mais graves e têm incidência aproximada de 3 casos a cada mil nascidos vivos.

A investigação pode começar ainda na gravidez, por meio da ultrassonografia obstétrica. Quando há suspeita de alteração cardíaca, o ecocardiograma fetal ajuda a avaliar com mais precisão a estrutura e o funcionamento do coração do bebê. Após o nascimento, o diagnóstico pode incluir exame físico, teste do coraçãozinho, eletrocardiograma, radiografia de tórax e ecocardiograma.

O tratamento depende do tipo de cardiopatia e da gravidade do quadro. Alguns pacientes precisam apenas de acompanhamento clínico. Outros necessitam de medicamentos, procedimentos por cateterismo ou cirurgia. “Muitas cardiopatias podem ser corrigidas ou tratadas cirurgicamente, permitindo uma vida mais saudável e reduzindo o risco de complicações futuras”, destaca o cardiologista.

Mesmo após correção ou tratamento, o acompanhamento médico deve continuar. Algumas cardiopatias exigem monitoramento ao longo da vida para avaliar a evolução do coração, orientar atividades físicas e identificar precocemente possíveis complicações.

Além das consultas regulares, hábitos saudáveis ajudam na qualidade de vida dos pacientes. Alimentação equilibrada, controle da pressão arterial, exercícios orientados e abandono do tabagismo são medidas importantes para proteger a saúde cardiovascular.

Para Anderson Estevan, informação e diagnóstico precoce são pilares do cuidado. “A conscientização sobre a cardiopatia congênita é fundamental para que mais casos sejam identificados precocemente e os pacientes tenham acesso ao tratamento adequado. Quanto mais cedo ocorrer o diagnóstico e o acompanhamento especializado, maiores são as chances de reduzir complicações e garantir melhor qualidade de vida ao longo dos anos”, conclui.


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