Polícia / Justiça
Homem solto após matar casal diz à polícia que agiu para se defender
Deivison Felipe Alves de Brito é investigado pela morte de Natália dos Anjos Molina e Ademar Spacino Júnior; MPMS recorreu da soltura
07/06/2026
11:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
O homem investigado pela morte da mulher trans Natália dos Anjos Molina, de 33 anos, e do marido dela, Ademar Spacino Júnior, de 38 anos, afirmou em depoimento que disparou porque acreditava estar em risco. Deivison Felipe Alves de Brito, de 30 anos, foi preso em flagrante após o crime, ocorrido na madrugada de sexta-feira, 5 de junho, no bairro Taquarussu, em Campo Grande, mas acabou colocado em liberdade provisória após audiência de custódia realizada no sábado, 6 de junho.
Durante o interrogatório, Deivison alegou legítima defesa. Segundo a versão apresentada por ele, a confusão teria começado após um desentendimento envolvendo sua esposa e o casal. O investigado disse que Natália teria avançado contra a mulher dele e que, diante da situação, pegou uma arma de fogo dentro de casa.
Ainda conforme o relato prestado à polícia, Deivison afirmou que a arma estava descarregada sobre um armário, que colocou munições e realizou os primeiros disparos a partir do portão da residência. Ele também disse que, em determinado momento, teria recarregado o revólver. Ao justificar a reação, declarou: “Ou era eu, ou era eles”.
Sobre a morte de Ademar Spacino Júnior, o investigado relatou que o marido de Natália teria ido até o local após ser chamado pela companheira. Segundo Deivison, Ademar teria se dirigido à cozinha para pegar uma faca e depois se aproximado dele, momento em que novos disparos foram efetuados.
Familiares de Natália, no entanto, contestam a versão apresentada pelo autor dos disparos. A mãe da vítima afirmou que a filha e o marido vinham sendo ameaçados com frequência por Deivison e pela esposa dele. Em entrevista, ela classificou o caso como possível crime motivado por ódio, em razão de Natália ser uma mulher trans.
Após a decisão que concedeu liberdade provisória ao investigado, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) apresentou recurso ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) pedindo a prisão preventiva de Deivison. O órgão tenta suspender imediatamente os efeitos da decisão tomada na audiência de custódia.
No recurso, o MPMS sustenta que há indícios consistentes de autoria, incluindo a confissão do investigado, a apreensão da arma usada no crime e elementos periciais que apontam múltiplos disparos contra as vítimas. O Ministério Público também destaca que Natália foi atingida pelas costas e cita a necessidade de apurar eventual motivação discriminatória.
Para o órgão ministerial, a liberdade do investigado pode representar risco à ordem pública, além de comprometer a instrução criminal. O MPMS argumenta que testemunhas e familiares das vítimas podem se sentir inseguros com a soltura e que a tese de legítima defesa precisa ser analisada com mais profundidade ao longo da investigação.
A decisão inicial da Justiça, ao conceder liberdade provisória, levou em conta a possibilidade de legítima defesa, conforme a avaliação feita na audiência de custódia. Ainda assim, o Ministério Público afirma que esse tipo de conclusão não deveria ser definido de forma antecipada, especialmente diante da gravidade do caso e dos elementos já reunidos.
Segundo informações do procedimento policial, a esposa de Deivison relatou que havia desentendimentos anteriores com as vítimas e que já teria registrado boletim de ocorrência por ameaça em 26 de março. Ela afirmou ainda que, na manhã do crime, teria sido abordada de forma agressiva pelo casal ao sair de casa para trabalhar.
O caso foi atendido pelo Grupo de Operações e Investigações (GOI) da Polícia Civil. Durante as diligências, a perícia recolheu arma, munições e outros elementos que serão analisados no inquérito. A ocorrência foi registrada como homicídio simples, ameaça e posse irregular de arma de fogo.
A investigação deve esclarecer a dinâmica completa do crime, a sequência dos disparos, a existência de ameaças anteriores e se houve motivação discriminatória. Para os familiares das vítimas, o caso representa uma perda irreparável. Para o sistema de Justiça, a decisão sobre a prisão preventiva será determinante para os próximos passos do processo.
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