Política / Justiça
Mauro Cid volta a depor no STF e reafirma envolvimento de Bolsonaro na trama golpista
Ex-ajudante de ordens detalha atuação do ex-presidente em minutas golpistas, pressão por relatório militar, repasse de dinheiro e omissão diante de acampamentos
14/07/2025
08:15
DA REDAÇÃO
Mauro Cid depõe ao STF sobre a trama golpista — Foto: Gustavo Moreno/STF
O tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, volta a prestar depoimento nesta segunda-feira (14) ao Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito das ações penais que investigam a tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
Réu em um dos processos e delator premiado da Polícia Federal, Cid em seus depoimentos anteriores, apresentou novos elementos sobre três núcleos da trama golpista:
Núcleo 2: gerenciamento de ações (6 réus)
Núcleo 3: ações coercitivas (10 réus)
Núcleo 4: desinformação estratégica (7 réus)
Ele já havia prestado depoimento em junho, quando confirmou que Bolsonaro leu e alterou a minuta do golpe, pressionou militares e foi complacente com acampamentos golpistas.
Cid afirmou que Bolsonaro leu e pediu modificações em uma minuta que previa prisão de autoridades, como ministros do STF, presidentes da Câmara e do Senado.
“O presidente enxugou o conteúdo, retirando a maior parte das ordens de prisão”, disse o militar.
Cid ratificou a versão apresentada à PF de que houve tentativa de golpe após a eleição de Lula, dizendo que presenciou muitos dos fatos, ainda que não tenha participado diretamente.
Segundo Cid, Bolsonaro pressionou o então ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, para que fosse entregue um relatório “duro” contra as urnas eletrônicas.
O documento, no entanto, não apontou fraudes, conforme atestado por diversas instituições.
O delator revelou ter recebido dinheiro em uma caixa de vinho, entregue por Braga Netto no Palácio da Alvorada, e repassado ao major Rafael de Oliveira, suspeito de integrar o plano de atentado conhecido como Punhal Verde e Amarelo.
Cid apontou o general Braga Netto como elo entre Bolsonaro e os acampamentos golpistas montados em frente aos quartéis. O general, preso desde dezembro de 2024, teria financiado ações do grupo.
O ex-ajudante revelou que o entorno de Bolsonaro monitorou atividades do ministro Alexandre de Moraes, com ajuda da Força Aérea ou de assessores militares.
“O presidente recebia informações de encontros entre aliados e adversários e mandava verificar”, contou.
Cid negou ter participado ou tido conhecimento prévio do plano de assassinato do presidente Lula, do vice Geraldo Alckmin e de Moraes, mas reconheceu o envolvimento dos “kids pretos”, militares presos pela PF em 2024.
Em resposta ao próprio advogado, Cid reafirmou que Bolsonaro “buscava uma fraude nas urnas” como forma de contestar o resultado eleitoral.
“Era o objetivo dele, encontrar uma fraude. Foi o discurso dele o tempo todo”, disse.
Bolsonaro não agiu para desmobilizar os acampamentos que pediam intervenção militar. Cid relatou que a postura do ex-presidente era:
“Não fui eu que chamei, não sou eu que vou mandar embora”.
Durante reunião com os “kids pretos”, Moraes foi alvo de xingamentos, memes e figurinhas, segundo Cid. O ministro reagiu com ironia durante o depoimento, ao destacar a contradição entre o tom informal e o teor conspiratório das conversas.
A Operação Contragolpe investiga uma organização criminosa militar e civil que teria planejado um golpe após a derrota de Bolsonaro em 2022.
A PF sustenta que havia financiamento do agronegócio e ações coordenadas para desestabilizar o sistema eleitoral.
Mauro Cid é peça-chave no processo e seus depoimentos reforçam as conexões entre Bolsonaro, militares e agentes públicos.
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