Campo Grande (MS), Quinta-feira, 04 de Junho de 2026

Política / Justiça

MP aponta ex-superintendente da Sisep como articulador de fraudes em contratos de manutenção urbana

Relatório da Operação Buraco Sem Fim cita diálogos, planilhas e suposta manipulação de medições em contratos investigados desde 2018

15/05/2026

10:30

DA REDAÇÃO

Mehdi Talayeh durante entrevista em 18 de junho de 2019 ©Marina Pacheco/Arquivo

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) aponta o engenheiro Mehdi Talayeh, ex-superintendente de Serviços Públicos da Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos), como um dos principais articuladores do suposto esquema de fraudes investigado na Operação Buraco Sem Fim, deflagrada na última terça-feira, 12 de maio.

Segundo relatório do Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), Mehdi Talayeh atuaria como o “arquiteto das fraudes” dentro da secretaria, determinando a inserção de valores considerados irreais em planilhas de medição de serviços. A investigação mira contratos de manutenção de vias urbanas, entre eles ajustes firmados com a Construtora Rial Ltda.

O ex-superintendente já havia sido alvo da Operação Cascalhos de Areia, em 2023, mas permaneceu na estrutura da pasta de Obras. A exoneração só foi formalizada nesta semana, após a prisão decretada a pedido do MPMS.

De acordo com o relatório, o núcleo operacional do suposto esquema envolvia servidores responsáveis por medições, ajustes de valores e controle de saldos contratuais. O servidor Erik Antônio Valadão Ferreira de Paula é apontado como responsável pela inserção material dos dados considerados fraudulentos. Já Fernando de Souza Oliveira, então gerente de Controle de Medições, teria papel relevante na viabilização do esquema, por acompanhar os saldos remanescentes dos contratos.

O Gecoc sustenta que Mehdi Talayeh definia os valores das medições, enquanto Fernando de Souza Oliveira fazia ajustes para adequar as planilhas ao que a investigação classifica como acordo ilícito. Ainda conforme o Ministério Público, essas alterações ocorreriam sob orientação de Rudi Fiorese, ex-secretário municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos.

O relatório indica que o suposto esquema teria funcionado entre 2018 e 2025. A documentação citada na investigação, no entanto, não detalha de que forma teria ocorrido a atuação de Rudi Fiorese após 2023, ano em que ele deixou o comando da Sisep.

Entre os elementos reunidos, o Ministério Público cita diálogos e arquivos que, segundo a apuração, demonstrariam ausência de medição real dos serviços executados. Em conversas analisadas pelos investigadores, aparecem referências a valores previamente definidos e à necessidade de “encaixar” ruas nas planilhas para alcançar determinados montantes.

Em um dos diálogos, datado de 2 de fevereiro de 2021, Erik teria enviado áudio a Mehdi indicando que os valores lançados nas medições não correspondiam necessariamente aos serviços executados. A conversa, segundo o relatório, fazia referência a contrato de outra empresa e trazia expressões como “já consegui chegar nesses valores” e “estou tendo que colocar bastante rua para chegar nesse valor”.

Outro trecho destacado pelo Gecoc é de 4 de junho de 2021, quando Erik teria informado que concentrou valores maiores na região do Anhanduizinho, sob a justificativa de que havia mais ruas no local. Na mesma conversa, conforme a investigação, ele teria mencionado que em outra região houve pouco serviço, mas ainda assim seria necessário ajustar os números.

Para o Ministério Público, esses diálogos reforçam a suspeita de que as medições eram moldadas para atingir valores previamente combinados, e não para refletir o volume real de serviços prestados pelas empreiteiras.

Além de arquivos eletrônicos, os investigadores também identificaram uma anotação feita à mão. Conforme o relatório, Mehdi Talayeh teria encaminhado a Rudi Fiorese a foto de uma caderneta com nomes de empresas e números que seriam referentes a valores de pagamento.

A Prefeitura de Campo Grande informou que ainda aguarda acesso ao processo, que tramita em segredo de Justiça. Em nota, afirmou que o objetivo principal é não prejudicar a continuidade dos serviços prestados à população e que eventuais manifestações serão feitas judicialmente nos autos.

As defesas dos investigados negam as acusações. O advogado Fábio Ferraz, que representa Erik Antônio Valadão Ferreira de Paula, afirmou que o cliente considera as acusações falsas e que pretende demonstrar sua inocência ao longo do processo.

Já o advogado Werther Sibut de Araújo, responsável pela defesa de Rudi Fiorese, disse que a prisão não condiz com a trajetória do ex-secretário e que a defesa pretende comprovar sua conduta. Um pedido de habeas corpus foi apresentado ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS).

A reportagem não conseguiu contato com a defesa dos demais citados. O caso segue sob investigação.


Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.

Últimas Notícias

Veja Mais

Envie Sua Notícia

Envie pelo site

Envie pelo Whatsapp

Jornal do Estado MS © 2021 Todos os direitos reservados.

PROIBIDA A REPRODUÇÃO, transmissão e redistribuição sem autorização expressa.

Site desenvolvido por: