Economia / Negócios
Recuperação judicial e extrajudicial: como funcionam as alternativas para empresas enfrentarem crises financeiras
Alta dos juros, crédito restrito e recorde de pedidos no Brasil exigem decisões estratégicas sobre dívidas e reestruturação
21/01/2026
14:30
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
Em um cenário marcado por juros elevados, restrição ao crédito e instabilidade econômica, a gestão do fluxo de caixa tornou-se um dos principais desafios para empresas brasileiras. Esse contexto já se reflete nos números: em 2024, o Brasil registrou mais de 2,2 mil pedidos de recuperação judicial, o maior volume da série histórica, segundo dados da Serasa Experian.
Embora os dados consolidados de 2025 ainda não tenham sido divulgados como total anual, indicadores parciais mostram que a pressão financeira permanece intensa, especialmente no agronegócio. Apenas no terceiro trimestre de 2025, o setor registrou 628 pedidos de recuperação judicial, um aumento de 147,2% em relação ao mesmo período de 2024 — o maior volume já observado nesse recorte setorial.
Diante desse quadro, a escolha entre recuperação judicial e recuperação extrajudicial tornou-se uma decisão estratégica fundamental para a continuidade dos negócios.
Segundo Felipe Lascani, advogado empresarial e administrador judicial do Grupo Villela, a recuperação judicial costuma ser indicada quando o endividamento está pulverizado e os conflitos com credores já se intensificaram.
“Ao recorrer ao Judiciário, a empresa obtém proteção contra execuções e cobranças, criando espaço para reorganizar dívidas, preservar bens essenciais e manter a operação”, explica. Esse modelo é mais comum entre médias empresas, que hoje concentram parcela relevante dos pedidos no país.
Lascani alerta, no entanto, que a recuperação judicial não é um escudo automático. “Ela exige disciplina financeira, transparência e um plano consistente de reestruturação. Sem isso, o desgaste com o mercado e com os credores pode ser significativo”, ressalta.
Já a recuperação extrajudicial segue uma lógica predominantemente negocial. Ela é indicada para empresas que ainda mantêm boa relação com seus principais credores e conseguem construir acordos de forma direta.
Entre as principais vantagens estão o custo mais baixo, a maior agilidade e a discrição, já que o processo evita exposição pública excessiva. Após a negociação, o acordo pode ser levado ao Judiciário apenas para homologação, garantindo segurança jurídica às partes.
“Quando há diálogo e racionalidade econômica, a recuperação extrajudicial costuma ser mais eficiente. Ela preserva a imagem da empresa, reduz ruídos no mercado e permite ajustes relevantes no passivo”, afirma Lascani.
Mais importante do que o instrumento escolhido é o timing. Empresas que buscam apoio no início da crise ampliam suas alternativas e mantêm maior controle sobre o processo. Quando a situação se agrava, a recuperação deixa de ser estratégica e passa a ser apenas uma medida de contenção.
“O erro mais comum é confundir resistência com adiamento. Persistir sem ajustes, esperando uma reversão espontânea, raramente funciona”, avalia o especialista.
Antes de recorrer a qualquer tipo de recuperação, especialistas recomendam um diagnóstico financeiro detalhado, identificando volume das dívidas, perfil dos credores e capacidade real de geração de caixa. Esse mapeamento costuma ser feito com apoio de assessorias jurídicas e financeiras especializadas.
Recuperação judicial: começa com pedido formal à Justiça, acompanhado de documentação contábil, fiscal e societária. Após o deferimento, cobranças e execuções são suspensas por um período, permitindo a apresentação de um plano de reorganização das dívidas, com prazos maiores e possíveis deságios. O processo é acompanhado por um administrador judicial indicado pelo tribunal.
Recuperação extrajudicial: ocorre fora do Judiciário. A empresa negocia diretamente com os credores e, após o acordo, solicita apenas a homologação judicial, garantindo validade legal.
Para Felipe Lascani, conduzir o processo de forma isolada é um risco. “A combinação de assessoria jurídica e financeira é essencial para escolher o caminho adequado, negociar com credores e aumentar as chances de uma recuperação bem-sucedida”, conclui.
Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.
Leia Também
Leia Mais
MS realiza primeira cirurgia com polilaminina, proteína experimental para recuperação de movimentos após lesão medular
Leia Mais
Riedel assume presidência do Consórcio Brasil Central e defende união dos estados para ampliar força política
Leia Mais
Adolescente morre após descarga elétrica provocada por celular ligado à tomada no Pará
Leia Mais
Separado desde dezembro, gerente premeditou assassinato do patrão e cometeu suicídio em Campo Grande
Municípios