Cidades / Investigação
Construtora alvo da Operação Buraco Sem Fim soma R$ 96,7 milhões em aditivos com a Prefeitura
Empresa investigada pelo MPMS aparece em contratos ativos de R$ 147,6 milhões e teve sócio-administrador preso nesta terça-feira
12/05/2026
18:45
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A Construtora Rial Ltda., empresa investigada na Operação Buraco Sem Fim, acumula R$ 96.765.646,84 em aditivos em contratos firmados com a Prefeitura de Campo Grande. A empresa é apontada como alvo da investigação deflagrada nesta terça-feira, 12 de maio de 2026, pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco).
Com sede em Campo Grande, a construtora tem como atividade principal obras de terraplanagem e possui capital social de R$ 10 milhões. O sócio-administrador da empresa é Antônio Bittencourt Jacques Pedrosa, um dos alvos presos durante a operação. Outras seis pessoas também foram detidas na ofensiva.
De acordo com levantamento feito em publicações do Diário Oficial de Campo Grande (Diogrande), a empresa aparece em contratos com o município pelo menos desde 2011. Atualmente, a Construtora Rial Ltda. soma R$ 147.621.717,54 em contratos ativos referentes a licitações abertas a partir de 2022.
Do total em contratos ativos, R$ 96.765.646,84 correspondem a aditivos, ou seja, valores acrescentados aos contratos originais por justificativas como ampliação de serviços, prorrogação de prazos ou aumento de custos. Esses acréscimos não significam, necessariamente, que todo o montante já tenha sido pago pela Prefeitura.
Segundo dados da Transparência municipal citados na apuração, os desembolsos identificados até o momento somam R$ 74.896.278,49. Parte dos valores aparece como empenhada, etapa em que a administração reserva recursos para futura execução e pagamento, enquanto outras parcelas ainda constam como “a executar”.
A Prefeitura informou, em nota, que a investigação trata de contratos de manutenção de vias pavimentadas firmados desde 2017. Já o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) apontou que, entre 2018 e 2025, a empresa investigada acumulou contratos e aditivos que somam R$ 113.702.491,02.
Em consulta ao Diogrande, a construtora aparece em dois avisos de licitação em 2017. Um deles, publicado em 26 de setembro, tratava da habilitação da empresa em concorrência para implantação e manutenção do sistema de iluminação pública. O outro, de 28 de setembro, envolvia manutenção de vias públicas, reconstituição de pavimento asfáltico e selagem de capa asfáltica, com fornecimento de materiais nas sete regiões urbanas de Campo Grande.
Em maio de 2018, a Construtora Rial venceu licitação para manutenção de vias não pavimentadas em dois lotes. Um deles atendia a região do Anhanduizinho, com valor de R$ 3.473.379,10, e o outro abrangia a região do Bandeira, com contrato de R$ 2.676.441,50.
Os contratos foram celebrados em julho de 2018 e tiveram os prazos prorrogados sucessivamente. No caso do Anhanduizinho, os aditivos levaram o acordo até janeiro de 2024. No Bandeira, a vigência foi estendida até julho de 2024.
Outro contrato citado na apuração foi firmado em novembro de 2020, no valor de R$ 1.683.356,92, para manutenção de vias públicas não pavimentadas nas estradas vicinais CG-140, CG-160, CG-180, Ramal e CG-220, na região da APA do Guariroba.
Na Transparência da Prefeitura, a empresa aparece em contratos ativos com a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep) e com a Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran). Nos contratos da Sisep, os valores iniciais somavam R$ 38.464.863,97, mas passaram para R$ 135.230.510,81 após aditivos.
Entre os contratos em vigor está o lote 001 da licitação de 2022, voltado à manutenção na região urbana do Anhanduizinho. O contrato original era de R$ 10,2 milhões, mas recebeu R$ 41,8 milhões em aditivos, chegando ao valor total de R$ 52.157.356,45.
Outro contrato envolve a manutenção de pavimento asfáltico na região do Imbirussu, referente ao lote 004 da licitação de 2022. O valor inicial era de R$ 5,4 milhões, mas, com R$ 24,3 milhões em aditivos, alcançou R$ 29.783.245,48.
Também consta contrato para manutenção de pavimento asfáltico e recomposição de capa asfáltica, com vigência prevista entre 2026 e 2027, no valor total de R$ 9.037.564,25, após R$ 2 milhões em aditivos.
Na licitação de 2024, a empresa aparece em contrato para manutenção de vias não pavimentadas nas regiões do Anhanduizinho, Bandeira, Imbirussu, Lagoa, Prosa e Segredo. O valor passou de R$ 7,4 milhões para R$ 16.576.939,65, depois de aditivos que somam R$ 9,1 milhões.
Segundo o MPMS, a Operação Buraco Sem Fim apura a existência de uma organização criminosa voltada a fraudar, de forma sistemática, a execução de serviços de manutenção de vias públicas em Campo Grande. A suspeita é de manipulação de medições e realização de pagamentos indevidos.
A investigação aponta que houve pagamentos públicos sem correspondência com os serviços efetivamente prestados, o que teria permitido desvio de dinheiro público, enriquecimento ilícito dos investigados e impacto direto na qualidade das vias municipais.
Durante a operação, foram cumpridos sete mandados de prisão e dez mandados de busca e apreensão. A Prefeitura informou que acompanha os trabalhos do Gecoc e que os servidores investigados estão sendo exonerados das funções para apresentar defesa.
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