Artigo / Opinião
O clarão na Serra de Maracaju
13/05/2026
07:35
João Roberto Giacomini
©REPRODUÇÃO
Era uma daquelas noites de feriado prolongado típicas de quem vive entre rios, pescarias e o céu exageradamente grande do Pantanal.
A gente havia se reunido num pesqueiro perdido entre mato, água e silêncio para aquilo que o pantaneiro sabe fazer como poucos: churrasco, cerveja gelada e prosa comprida.
E tinha surtum. Ah… o surtum.
Aquele pedaço de carne tão macio que parecia desmanchar antes mesmo de chegar direito à boca. Só sal grosso, mandioca fumegando, pimenta daquelas que queimam até o último neurônio vivo — justamente por isso tão apreciadas — e uma moda de viola tocando baixinho ao fundo, misturada ao barulho da água batendo nas pedras.
Não havia luxo algum. E talvez fosse exatamente isso que fazia a noite perfeita.
Pouca luz. Muita estrela. Histórias exageradas. Declamações improvisadas. Mentiras pescadoras sendo tratadas como documentos históricos.
A Serra de Maracaju aparecia ao longe, escura e imponente, desenhada na noite como se tivesse sido colocada ali apenas para completar o cenário.
A brisa atravessava o mato devagar, e tudo parecia em harmonia com aquele instante simples e inesquecível.
Até que aconteceu! Inacreditável!
De repente, um clarão violentíssimo iluminou a serra — um foco intenso descendo sobre as árvores, como se o próprio céu tivesse escolhido aquele pedaço da noite para revelar alguma coisa que não nos pertencia compreender.
Não era relâmpago.
Não era relâmpago. Não era farol. Não se parecia com nada que qualquer um de nós tivesse visto antes. Parecia um holofote gigantesco de algum ponto do céu apontado diretamente para a Serra de Maracaju.
As árvores ficaram iluminadas como se fosse dia.
Por alguns segundos, ninguém falou nada.
Nem a viola. Nem os cachorros. Nem os “bebuns”.
A luz era tão intensa que chegava a doer nos olhos.
E então… apagou. Assim.
Como se nunca tivesse existido. O céu voltou ao escuro absoluto.
Mas antes que alguém tivesse coragem de perguntar qualquer coisa, o clarão voltou. Mais forte. Mais estranho. Mais absurdo.
Rasgou a escuridão outra vez, desenhou um risco luminoso no céu e desapareceu numa velocidade impossível.
Sem fumaça. Sem barulho. Sem explicação.
Ficamos todos parados, olhando uns para os outros, tentando decidir silenciosamente se aquilo realmente havia acontecido.
Hoje eu fico pensando como seria se fosse nos tempos atuais.
Alguém teria filmado. Outro teria colocado no WhatsApp.
Em quinze minutos apareceria um especialista em fenômenos aéreos no TikTok explicando que aquilo era um reflexo atmosférico causado pela inclinação da lua em contato com gases ionizados da fronteira boliviana.
Mas naquela época não. Naquela época sobravam apenas olhos arregalados e dúvidas sinceras.
E talvez isso tornasse tudo ainda mais assustador.
A única coisa que continuou funcionando normalmente foi a cerveja.
E a cachaça mineira. Aliás, principalmente ela.
Depois do susto, seguimos noite adentro fingindo naturalidade. Mais um pedaço de surtum daqui, uma latinha dali, menos conversa que o habitual.
Ninguém queria ser o primeiro a dizer: “Vocês viram o que eu vi?”
Mas o pior veio na manhã seguinte!
Quando acordamos, ainda meio destruídos pela mistura de churrasco, fumaça e ressaca filosófica, percebemos algo estranho.
A cachaça havia sumido. Toda. Não sobrou uma gota sequer.
As latinhas de cerveja também desapareceram misteriosamente.
Nenhum rastro. Nenhuma explicação.
Foi aí que surgiu a única conclusão minimamente lógica possível para pescadores levemente alcoolizados: os extraterrestres abasteceram o disco voador.
E, sinceramente, até hoje ninguém conseguiu apresentar teoria melhor.
O curioso é que jamais voltamos a falar seriamente sobre o assunto.
Criou-se uma espécie de pacto silencioso entre todos nós.
Talvez porque soubéssemos exatamente qual seria a reação das pessoas: “Isso é pinga.” E veja bem… talvez fosse mesmo. Mas também talvez não fosse.
O fato é que aquela luz ficou gravada na memória com uma nitidez desconfortável.
Vinte anos depois, ainda consigo enxergar a Serra de Maracaju iluminada como se o próprio céu tivesse aberto os olhos sobre nós.
Às vezes penso que foi ilusão. Às vezes penso que foi a experiência mais verdadeira da minha vida.
O Pantanal tem dessas coisas. Ele guarda mistérios do mesmo jeito que guarda rios: em silêncio.
E talvez seja melhor assim. Porque certas histórias sobrevivem justamente por nunca terem sido totalmente explicadas.
Embora eu admita uma coisa: até hoje continuo desconfiando profundamente de extraterrestres que apreciam churrasco pantaneiro, cerveja gelada e uma boa cachaça mineira.
E, para não perder o costume, sigo pescador esportivo nato.
Até a próxima pescaria.
João Roberto Giacomini – Advogado/escritor
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